O silêncio do Afeto Confiscado

A hipocrisia é descrita como uma “farsa dos justos”

A má índole me privou de vocês. Em um só golpe, a mão alheia, movida por uma falsa justificativa, se aproveitando de uma brecha falha na lei, arrancou de mim a luz dupla que iluminava a minha penumbra. Como se pode, com tamanha indiferença e hipocrisia, separar seres que viviam em uma simbiose de afeto? São duas, cada uma com sua própria pureza, cada uma com seu jeito único de me lembrar que a vida ainda valia a pena, apesar de toda a podridão e falsidade do mundo.

Agora, o silêncio que me acompanha não é apenas vazio; é um silêncio simétrico, absoluto, que grita a injustiça de uma hipocrisia imposta. Ao chegar do trabalho não sinto mais alegria dos seus saltos em meu peito; escuto o nada e sinto a falta de dois ritmos de respiração que, antes, eram a música do meu descanso e a prova de que eu não estava só nessa corrida cruel que chamamos de vida. O que nos fizeram é um ato sem perdão, um ato de vilania calculado por quem usa máscaras sociais para esconder um deserto de empatia. Afastar uma já seria uma crueldade, mas privar-me das duas é tentar apagar, de uma vez por todas, a minha conexão com o que há de sanidade e amor no mundo.

A saudade que sinto da minha morceguinha e minha branquinha não é passiva; ela é uma denúncia. É o testemunho de que fui impedido de exercer o cuidado por quem amava pela mão fria de quem se julga dona de uma razão hipócrita e falsa moralidade. A algoz da inocência pode ter a posse física, pode ter erguido muros e portões, mas jamais será dona da lealdade que nos une. Enquanto a hipocrisia celebra sua “vitória” momentânea, eu sigo aqui, transformando cada batida desse vazio em palavras que nunca deixarão o mundo esquecer o que nos foi roubado.

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