E agora, Maykel?

“Entre o desejo de potência e a melancolia do agora, o eco permanece.”

Hoje, enquanto eu rolava o feed das redes sociais sem muito propósito, me deparei com uma declamação do poema “José”, de Carlos Drummond de Andrade. Fazia anos que eu não parava para ouvir ou ler esses versos, e o impacto foi imediato. Drummond descreve aquele impasse que a gente conhece bem: o momento em que a festa acaba, a luz apaga e a gente se vê sem chão. Cabe perfeitamente no nosso dia a dia, não acham? Quantas vezes nos deparamos com os absurdos da vida e simplesmente ficamos sem reação, paralisados pelo desespero de não saber para onde ir.

Foi nesse instante de reflexão, com o eco do “E agora, José?” na cabeça, que me perguntei: “E agora, Maykel?”

Ao olhar para o meu braço, encontrei a resposta gravada na pele. Ali, na minha tatuagem, vejo o confronto direto com o conceito de Übermensch, é o chamado de Nietzsche para a criação dos meus próprios valores, mesmo quando o mundo parece não oferecer nenhum. Mas o filósofo não caminha sozinho nessa jornada, ao lado da força da criação me deparo com uma data que me atinge em cheio pela razão da minha maior saudade aquelas lembranças que eram o único aconchego real nos meus momentos de desespero sem saída.

No entanto, carregar o ideal do Übermensch no braço e o peso da saudade no peito não me traz respostas mágicas. Às vezes, a filosofia e a memória são apenas lanternas que mostram o tamanho da escuridão ao redor. Olho para a marca da data, para a potência que tento exercer e para o vazio que Drummond descreveu tão bem, e percebo que a paralisia de José ainda me habita. Não há um mapa, não há uma saída óbvia, e a vontade de criar meus próprios valores esbarra, muitas vezes, no cansaço de uma vida que insiste no absurdo. No fim, a tatuagem me lembra quem eu devo ser, mas o silêncio do mundo me lembra onde ainda estou. E assim, entre o desejo de potência e a melancolia do agora, o eco permanece, sem promessas e sem pressa: E AGORA, MAYKEL?

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