Nesse dia cinzento e frio, me pego rolando o feed e vira e mexe me deparando com uma declaração ou outra de amor para o Dia dos Namorados. Porém, do nada, um post me chamou a atenção: uma página do Raul Seixas tocando uma música que até então eu não conhecia, “Mas I Love You (Pra Ser Feliz)”. Mais especificamente este trecho: “O que é que ‘cê quer? Que eu largue isso aqui? É só me pedir!”. Você pode estar pensando: “Maykel, qual o espanto? É só mais uma letra de renúncia por amor.” E é. O problema é quem está cantando. O Maluco Beleza, o mesmo que cantou em “Medo da Chuva” que não era escravo nem propriedade de ninguém. Há de concordar que gera uma certa estranheza, não?
E quando foi que isso virou estranheza? Sermos capazes de largar “tudo” por alguém que nos faz bem. Quando somos adolescentes, naquele primeiro amor avassalador, o “eu largo o que sou” não soa como loucura, soa como a única ação possível. Mesmo que, na nossa ingenuidade, o coração jovem possa ser destroçado. Essa seria a consequência. Aliás, que consequência, né? Desde quando adolescente pensa nisso? O adolescente que se joga de olhos fechados num amor está certo, ou o adulto que calcula teve perdas demais que custaram caro?
Tem um filósofo que ficaria do lado do adolescente nessa briga. Byung-Chul Han diria que amar é morrer um pouco. Não a morte literal, mas a morte do eu que existia antes daquela pessoa chegar, pois quem ama de verdade não sai a mesma pessoa. Coisa que o Raulzito resolveu em três palavras: largo o que sou.
“Feliz eu serei seu nada…” E assim o Maluco Beleza reforçou o apelido. Porque, convenhamos, só um maluco anuncia o nada como quem anuncia uma conquista. Talvez “maluco” seja exatamente o nome que o mundo dá a quem ama sem calcular. Mas repara bem na contradição: como alguém pode ser feliz sendo nada? Simples. O nada dele é material. O tudo dele é ela. É aqui que eu imagino o Raul trocando os palcos lotados por um corredor de prédio, uniforme de zelador, vassoura na mão. E feliz. Não porque perdeu tudo, mas porque descobriu que precisava de quase nada. Desde que ela estivesse ali.
Bonito, né? Pois é. Mas a experiência adulta também puxa uma cadeira nessa mesa, e ela não veio para concordar. Todo mundo conhece alguém que largou tudo: a faculdade, a cidade, o sonho. E ficou sem a pessoa e sem o sonho. Quem viu isso de perto sabe que as cicatrizes não são frescura, são aula. O adulto que calcula não nasceu calculista. Ele foi um dia o adolescente de olhos fechados, e bateu com a cara no chão. Han chamaria esse cálculo de agonia do amor. O adulto chamaria de sobrevivência. E eu, sendo honesto, não sei qual dos dois está mentindo menos.
Por isso não vou terminar este texto com resposta, até porque o Raulzito também nunca deu nenhuma. Hoje é Dia dos Namorados, e a pergunta que a música me deixou eu deixo para você: esse amor que larga tudo é só uma letra bonita de se ouvir, ou é mesmo o único jeito de ser feliz? Olha para quem está do seu lado e se pergunta: eu largaria? E, talvez a pergunta mais difícil: alguém já te pediu? Ou será que ninguém pede porque todo mundo já sabe a resposta?


Deixe uma resposta