O Último Beijo tem cor de Batom Vermelho

Tem alguém te observando agora. Não olhe para trás. Ela está aí, invisível, sentada no canto da sala, com a boca escancarada cheia de dentes, esperando pacientemente o seu vacilo. A maioria de nós passa a vida fingindo que essa visita indesejada nunca vai acontecer, trancando a porta com cadeados de distração e rotina. Mas Raul Seixas, com a coragem de um louco ou a lucidez de um sábio, decidiu não trancar a porta. Ele convidou a Morte para entrar, ofereceu um copo e perguntou: “E aí, vai ser hoje?”.

Na filosofia, Martin Heidegger chamava essa consciência de Sein-zum-Tode (Ser-para-a-morte). O conceito é simples, mas a digestão é difícil: a única certeza absoluta da nossa existência é que ela acaba. E, paradoxalmente, a gente vive fingindo que é imortal. A gente preenche a agenda, compra parcelado em 30 vezes e adia o café com o amigo, tudo para não pensar naquela figura que nos espera na esquina.

O brilhantismo da letra do Raul está na banalidade. Ele não teme morrer numa guerra épica. O medo dele e o nosso é que o fim chegue num momento idiota. “Talvez tomando um whisky, talvez num domingo de sol”.

Isso é estoicismo puro. Sêneca dizia que a morte não é algo que acontece no futuro; é algo que acontece agora. A cada minuto que passa, morremos um pouco. O Raul entende isso. Ele sabe que o encontro está marcado, mas o “local e a hora” são o grande mistério que tortura e, ao mesmo tempo, dá sabor à vida.

Se soubéssemos a hora exata, talvez perdêssemos a graça. Ou talvez vivêssemos em pânico. A ignorância sobre o “quando” é o que nos permite levantar da cama. Mas há algo mais profundo aqui: ao cantar para a morte, Raul tira o poder paralisante dela. Ele humaniza a caveira.

No fundo, “Canto para minha morte” não é sobre morrer. É o hino mais desesperado sobre a vida.

Agora, seja honesto: o que você está guardando para “um dia especial”? Aquele vinho caro, a viagem dos sonhos, o pedido de desculpas, o “eu te amo” entalado na garganta? Raul nos lembra que a Morte não consulta sua agenda do Google. Ela não se importa se você ainda não foi promovido ou se a louça está suja. O beijo dela é gelado e definitivo. Se ela chegasse agora, neste exato segundo, te encontraria vivendo ou apenas durando? Te pegaria no meio de uma gargalhada ou rolando o feed do Instagram com cara de tédio?

Raul nos ensina que a única forma de vencer a morte não é vivendo para sempre, mas vivendo de verdade antes que ela chegue. O medo existe, claro. A letra treme, a voz falha. Mas ele canta. E cantar diante do inevitável talvez seja a maior prova de coragem que um ser humano pode ter.

Então, que venha o batom vermelho. Mas que ele nos encontre sujos de vida, cansados de tanto tentar e, preferencialmente, rindo.

Deixe uma resposta

Descubra mais sobre Filosofia em Lata

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading