Tenho pensado muito na moralidade que Nietzsche tanto fustigou. É curioso observar como o cenário de “ser bom” se tornou uma estética de vitrine. Vemos pessoas que não faltam um domingo à missa, que cumprem as penitências da Quaresma com rigor e exibem sua fé em legendas inspiradoras no Instagram. No entanto, na segunda-feira, a máscara cai ou melhor, ela se torna o próprio instrumento do ataque.
Ao agir, essas pessoas parecem esquecer o que pregam. Não pensam duas vezes antes de prejudicar o outro por proveito próprio, por arrogância ou por uma vingança fria que elas batizam de “justiça”. Aqui, nos deparamos com o conflito entre a Vontade de Poder e o Imperativo Categórico de Kant: a vontade de se sobrepor ao outro ignora o princípio de que o próximo deveria ser um fim em si mesmo, e nunca apenas um meio para o nosso sucesso pessoal.
A religião, nesse contexto, vira um “escudo”. A lógica é perversa: ajoelho-me no domingo para obter a licença de pecar na segunda. É a “máquina de lavar consciência”. Nietzsche identificou isso como o ápice do ressentimento: a pessoa não é virtuosa, ela apenas usa a “bondade” como uma maquiagem para esconder a incapacidade de lidar com seus próprios instintos.
O mais assustador é perceber que, na maioria das vezes, elas realmente acreditam que são boas. Vivemos uma espécie de “Ensaio sobre a Cegueira” de Saramago aplicada à moral. É uma cegueira branca e voluntária: uma luz tão forte de autoindulgência que impede a pessoa de enxergar a própria podridão. O arrependimento, quando surge, é puramente momentâneo. Ele não é o início de uma metamorfose, mas um pedágio espiritual pago para aliviar a culpa e permitir que a arrogância continue operando com a alma lavada.
No fim, o arrependimento de vitrine é a mentira mais confortável que existe. Ele não gera mudança de caráter; gera apenas manutenção de fachada. O banco da igreja vira um tribunal onde o réu é o próprio juiz, e a absolvição é garantida antes mesmo do crime ser cometido. Resta a pergunta: estamos nos arrependendo para evoluir ou apenas para lubrificar as engrenagens do nosso próprio egoísmo?


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