Um Mix de Raiva e Cafeína: Entre o Remédio e a Alma

Olho para o cursor piscando. Ele é o metrônomo da minha inércia. Ao redor, as multitelas brilham como um altar à produtividade, mas para mim são apenas uma demonstração do que não consigo ser. Estalo o lacre da lata de energético. O som é seco, uma tentativa desesperada de comprar motivação em miligramas de cafeína. O efeito, porém, é o inverso: o corpo acelera, mas a mente devaneia sobre o peso de tudo que ainda está por vir.

Busco no remédio para TDAH a ordem que a ansiedade insiste em desorganizar. Dizem por aí, com uma leveza irritante, que “todo mundo tem ansiedade” e que basta um ansiolítico para silenciá-la. Quem dera fosse tão simples. Ninguém fala sobre esse mix de raiva que nasce quando você percebe que está paralisado enquanto o mundo corre. Ninguém fala sobre a busca frenética por dopamina em coisas aleatórias, apenas para preencher um vazio que não tem nome. É nesse momento que me sinto como o personagem de Dostoiévski em suas Memórias do Subsolo: um homem doente, um homem mau que, mesmo sentindo o fígado doer, se recusa a se tratar apenas por raiva, por não entender bulhufas da própria doença.

A minha doença, se é que podemos chamar assim, é a falta. Sinto falta daquelas oito patas. Sinto falta da alegria pura, da ofegância de uma ansiedade que não é cobrança, mas vida: a ansiedade canina de quem apenas quer me ver. Minha mente é esse turbilhão, um emaranhado de cobranças e de uma ausência que machuca e revolta. É exaustivo. Talvez eu esteja apenas levando às últimas consequências a consciência da minha própria dor, encontrando prazer no fato de saber exatamente onde o sistema colapsa.

Mas me ocorre uma dúvida agora, diante do brilho azulado da tela, e se essa ansiedade contra a qual tanto brigo for, na verdade, a única coisa real que possuo? Em um mundo de entregas automáticas e sorrisos de feed, talvez a vida seja exatamente isso: essa briga eterna, interna e honesta de você contra você mesmo.

Ao fim de tudo, resta o silêncio do quarto e a luz fria do monitor. E eu lhes pergunto: será que o homem do subsolo está realmente errado ao alegar que está doente? Ou será que a doença é, na verdade, a lucidez de não conseguir ignorar o absurdo de uma vida pautada por metas e miligramas? Qual é a real dificuldade daqueles que nos cercam em entender o turbilhão que nos habita? Será que o erro está neles, por não decifrarem nossa paralisia, ou o erro é nosso, por acreditarmos que alguém pode ou deve entender o que se passa na nossa mente?

Afinal, o que nos resta, exigir que o mundo compreenda nosso subsolo ou nos forçarmos a uma adaptação que sufoca o que ainda temos de real? Talvez a resposta esteja naquelas oito patas, que não entendem nada de filosofia, mas são as únicas que aceitam o homem do subsolo exatamente como ele é.

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